Para ler devagarinho... VII


"Sim. Mira Milita ficara noiva de Rodolfo Augusto. O seu inocente coração cantava hinos de louvor à vida que assim a escolhera para tamanha felicidade. No seu belo apartamento no último andar de um luxuoso prédio com vista para a baía, ela esperava todas as noites a visita do seu amor. Ele, porém, pouco se demorava. Pedira-lhe que mantivesse o noivado em segredo e não queria dar nas vistas aos vizinhos. Punha acima de tudo a reputação de sua noiva, sim, Mira Milita era virgem e assim deveria continuar até ao casamento."

"Somando tudo o que lembrei nas minhas insónias da prisão e o que acabo de reviver aqui, esta foi a história da minha vida, a minha caminhada, o meu romance de Cordélia.

Hoje sei que fui eu que a escolhi.

Se o meu comportamento tivesse sido diferente, a minha mãe não me teria expulso. Podia ter escolhido ir para os Alcatruzes e não para casa da Berta. Se não tivesse abortado, talvez hoje um filho me acolhesse e ajudasse, como a família da tia Zulmira, a reerguer-me aos olhos do mundo. Podia ter escolhido vender a casa e saír do país quando tomei posse da herança. Podia ter fugido quando o Filipe me implorou que o fizesse. Podia, quando saí da prisão, ter procurado um advogado, ter-me inteirado da situação da minha casa, fazer alguma coisa para recuperá-la, vênde-la, começar vida nova.

Mas sei que, fosse qual fosse a minha escolha, num dado momento da minha vida, em qualquer lugar do mundo, Jesus me bateria levemente no ombro e me estenderia a minha malga de sopa.

Acabaria neste mesmo canto de rua, a mobilizar boas vontades, a dar de comer a quem tem fome, a motivar os deserdados a erguerem-se à sua dignidade de filhos de Deus.

Eu estaria aqui, neste momento solene da minha morte, fossem quais fossem as escolhas que o meu livre arbítrio me tivesse ditado.

Agora que compreendi isso, sinto-me preparada."

"Romance de Cordélia"
Rosa Lobato de Faria 1932 - 2010

De todo o legado, tão eclético e rico, que a Rosa Lobato de Faria nos deixou, escolhi para assinalar esta triste data, as suas próprias palavras, dois excertos de um dos meus livros preferidos, porque me tocou muito, porque a vida não é um romance de cordel...

Fica a obra. Boa viagem Rosa.

1 comment:

ianita said...

Lembro-me de ter achado o livro demasiado triste... como a vida.

Esperava sempre que ela pusesse a peruca ruiva e recuperasse a sua vida.

Custa-me a acreditar nessas últimas palavras... que quaisquer que sejam as nossas escolhas, o destino está traçado. Acho que essa é a desculpa de quem não toma as rédeas da sua vida.

Como a Rosinha fez... como tentamos nós fazer todos os dias.

Adorei o excerto. Vou ter saudades da ânsia de comprar um novo livro dela...