RAP e AL

"[...] Certo dia, quando trabalhava no JL, fui incumbido de entrevistar uma escritora chamada Adília Lopes. A primeira pergunta que lhe fiz foi sobre um poema seu de que eu gostava e gosto muitíssimo. Chama-se Autobiografia sumária e só tem três versos: "Os meus gatos / gostam de brincar / com as minhas baratas." O meu objectivo era impressionar a autora com a minha excelente interpretação do poema. Disse-lhe que aqueles versos eram também o resumo da minha vida. Os meus gatos, isto é, aquilo que em mim é felino, arguto, crítico ("Não é por acaso", disse eu, "que Fialho de Almeida reuniu os seus textos críticos num volume chamado Os Gatos"), aquilo que em mim é perspicaz - e até cruel - gosta de brincar com as minhas baratas, ou seja, com aquilo que em mim é repugnante, negro, rasteiro, vil. E aquela operação poética - que é, igualmente, uma operação humorística - de escarnecer de si próprio era-me tão familiar que podia descrever-me de forma tão competente como à autora do poema.
Os olhos de Adília Lopes humedeceram-se. Fosse qual fosse a noite solitária em que escreveu o poema, estava longe de imaginar que, tanto tempo depois, a sua alma gémea se apresentasse à sua frente, compreendendo-a tão profundamente. Foi então que Adília Lopes falou. Disse o seguinte: "Pois. Bom, comigo, o que se passa é que eu tenho gatos. E tenho também baratas, na cozinha. E os gatos gostam de ir lá brincar com elas." E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.
Foi naquele dia, amigo leitor, que eu deixei de me armar em esperto. Tinha citado Fialho de Almeida, tinha usado a expressão "operação poética", e tinha-me visto a mim onde só havia gatos e baratas. Os olhos de Adília Lopes estavam húmidos, provavelmente, do esforço que a sua proprietária fazia para não rir. Não eram só os sacanas dos gatos que escarneciam de mim: a Adília Lopes também. E, desde esse dia, tenho constatado que o mundo inteiro, em geral, me mofa (quem aprecia a frase bem torneada fará bem em registar, num caderninho próprio, a elegante construção "me mofa"). [...]"
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Texto simplesmente delicioso do RAP.
Das melhores aulas que tive na FLUC, Osvaldo Silvestre a leccionar AL.

2 comments:

Ianita said...

Precisamente.

O Osvaldo foi uma das pessoas com o sentido de humor mais apurado que alguma vez conheci. Estava, também aí, o seu charme.

Não é à toa que ele e a Adília são amigos.

Mas o texto literário é assim. A partir do momento em que é escrito pertence aos leitores e não a quem os escreve. Que lindo era se Pessoa, Camões ou Camilo pudessem vir às aulas de Português ver e ouvir o que deles se diz. Se calhar rir-se-iam :)

Rony said...

Já li este texto tantas vezes e sinto sempre vontade de rir, o auge é mesmo: "E depois exemplificou, com as mãos, o gesto que os gatos faziam com as patinhas.".

Sim, este texto levanta de forma extraordinária a questão da interpretação e da pertença do texto literário.

E a Adília Lopes? É uma iluminada incompreendida? Ou uma naïf com sorte?
Acho que nunca saberemos.